quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
Magia da Neve
2010 começou e está terminando com muita neve em Londres. No início do ano nevou como não acontecia há quase duas décadas. Por isso, o que se viu na cidade foi o retrato do caos que, ao contrário dos brasileiros, os ingleses não estão muito acostumados a lidar. Linhas de trens paradas, ônibus sem sair da garagem, estradas bloqueadas, escolas fechadas. Claro, junto com a neve caiu também uma chuva de críticas sobre a cabeça de Boris Johnson, prefeito da cidade. Para quem está acostumado com a ordem, o impresvisto, frequentemente, gera pânico. O papel de defender políticos não é uma roupa confortável de se vestir, mas até que dá pra entender a justificativa do prefeito: numa cidade que não costuma nevar é muito caro manter equipamentos que ajudem a amenizar uma situação que só ocorre ocasionalmente. Bobagem comparar com a capacidade dos russos, por exemplo, de lidar com a costumeira neve.
Mas o que eu queria destacar, entre as críticas e opiniões que ouvi nos debates da tv, radio e internet, foi o argumento de que a neve, por outro lado, levou pais e filhos para os parques (o que não falta em Londres é parque), como há muito tempo não se via. Eu mesmo testemunhei, andando pelo parque que fica a três minutos da minha casa, a presença de tantas famílias que mais parecia um domingo de piquenique: pais e filhos criando bonecos, guerra de bola de neve, alegria. O inglês, geralmente muito sisudo no inverno, concedia sorrisos. O argumento em questão era uma pergunta: "será que o fato da neve ter gerado, de forma tão espontânea, esse "dia da família", não compensava os bilhões de prejuízos que os econonistas se apressavam em calcular?" Bem, o fato é que o prejuízo que a neve traz é razoalvelmente calculável; os benefícios de se ver pais e filhos enchendo os parques e as ruas de alegria, nem tanto.
O meu vizinho inglês, John, costuma dizer que a neve é o meu playground. Ele, tem certa razão: bastam os primeiros sinais de flocos despencando do céu, e lá vou eu com a minha câmera pra janela, ou mesmo pra rua, capturar o momento mágico. Em seguida, corro para postar algumas dessas fotos na twitpic do Canallondres e no Facebook. A reação das pessoas mostra que não estou sozinho: muita gente clicando o botão 'like', muitos comentários, muita nostalgia, por parte de quem já viveu o momento. A primeira neve ninguém esquece.
Lembro que, há muito tempo atrás, no filme "Bye, bye, Brasil", há um momento de mágica no circo: o personagem interpretado por José Wilker faz nevar diante da platéia. Sob a chuva de farelos de côco, o personagem exclama algo assim: "Agora, como em todo país civilizado, no Brasil neva!" Isso acabava me levando a reflexões sobre o nosso propalado complexo de inferioridade em relação aos países do Hemisfério Norte, os chamados países protestantes e desenvolvidos. A minha experiência aqui acabou com qualquer resquício que pudesse existir em relação a este sentimento. Lembro que nos meus tempos de estudante de Sociologia se falava muito da tese de que o calor dos Trópicos era muito propício ao cultivo da preguiça, enquanto que o clima ameno do Hemisfério Norte gerava disposição para o trabalho. Posso assegurar que, pelo menos no meu caso, é bem mais fácil acordar disposto com o dia claro, e quente, às 5 da manhã (não que isso acontecesse comigo no Brasil), que às 9, num dia escuro de inverno. Talvez isso seja verdade para o trabalho intelectual, mas não é só isso que gera o que a gente se acostumou a chamar de desenvolvimento. Sem contar que a escuridão que cai sobre Londres às 4 da tarde, além de encurtar o dia, traz junto um sentimento muito parecido com a depressão. Gosto do frio porque ele me puxa pra cama. E cama, pra mim, é sinônimo de mais tempo para sonhar.
A verdade é que este sentimento de volta à infância que a neve desperta nos adultos, sejam eles brasileiros ou ingleses, me faz curtir muito estes momentos. No entanto, é sempre bom lembrar que depois da neve vem a lama. E isso traduz um pouco do que é a vida.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Antes e Depois do Canallondres
Agora em fevereiro completei 4 anos de Londres. Considerando o período entre agosto de 1998 e julho de 1999, quando morei como estudante, são 5 anos. Mas quero mesmo falar um pouco é sobre essa experiência londrina desde que aqui cheguei em fevereiro de 2006, e vou dividir este período em um antes e um depois: antes e depois do Canallondres.
A grande diferença entre estes dois períodos está no fato de que, até abril de 2009, quando o Canallondres foi lançado, a minha convivência com a comunidade brasileira em Londres era mínima. Fora alguns contatos esporádicos, tinha, de fato, apenas um amigo brasileiro, remanescente da minha primeira etapa londrina. Durante os dois primeiros anos, basicamente, me relacionei ou com ingleses (dois) que já conhecia, ou ingleses que conheci através da Susan, com quem sou casado. Foi e tem sido uma experiência maravilhosa, porque não poderia ter forma melhor para evoluir no domínio da língua inglesa e do jeito de ser de quem aqui nasceu. Mas também não é menos maravilhosa a experiência pós Canallondres.
Se existe uma coisa chamada alma brasileira, ela pode ser vista com maior nitidez através do brasileiro imigrante. Não existe melhor filtro para separar o que é essencialmente fruto de uma cultura em particular, e o que pertence ao ser humano como um todo. Existem aqueles onde esse filtro atua com maior rapidez e, outros, mais resistentes, que se recusam a absorver influências. Com o número de brasileiros abrigados em Londres, para muitos não é necessário sequer a preocupação com o aprendizado da língua. E embora essa seja a grande barreira a ser ultrapassada para quem deseja conhecer mais da cultura em que está inserido, não é tudo. Conviver com o inglês também exige muita paciência. Não há entre eles a euforia latina que nos torna "os melhores amigos" ao descobrir algumas poucas (ou muitas) afinidades logo no primeiro encontro. Amizade à primeira vista, está fora de questão. Ainda lembro da primeira vez que um amigo inglês ligou em casa e o quanto fiquei surpreso quando, ao falar que iria chamar a Susan, descobri que ele estava ligando para me convidar para uma pint. Isso levou mais de 2 anos para acontecer. Nos primeiros contatos com os brasileiros, uma das coisas que mais surpreendiam a Susan é o quanto dois brasileiros revelam de si mesmos logo no primeiro encontro. Recentemente, conheci uma brasileira que acabava de chegar e, logo nos primeiros minutos, tinha a sensação de que tinha acabado de ler a sua biografia. Como se não bastasse, no seu pouco inglês, ela repetiu tudo para a Susan, logo em seguida.
Também me fascina ver o quanto a nossa flexibilidade, quando não é acompanhada do famoso 'jeitinho' ajuda na adaptação a um lugar tão diferente. O inglês se acostumou tanto com estabilidade e previsibilidade, que entra em pânico quando alguma coisa sai ligeiramente do 'script'. Fico muito feliz de ver tantos brasileiros abrindo espaços, com uma vontade e uma inteligência tão peculiares quanto contagiantes. Parece que o fato de termos crescido encarando tantas adversidades, crises, inflação, desemprego, nos fizeram mais fortes para encarar qualquer situação. Londres também ajuda, pois é uma cidade que absorve, envolve e aceita quem está disposto a crescer.
Por tudo isso, fico feliz cada vez que tenho a oportunidade de contar um pouco da história desses brasileiros através dos vídeos do Canallondres. Além de cada um ter uma história única para contar, aprender através dessas histórias tem um valor muito acima do que eu poderia pagar, mesmo em sonho. Ou seja: não tem preço.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Os Lagos do Norte - Itália
De vez em quando a gente faz uma viagem que não cabe na gaveta do esquecimento. Há um ano atrás, passei uma semana na Itália, e um daqueles dias continua tão vivo na memória que nem é preciso recorrer à fotos para relembrá-lo: o dia em que fui levado para conhecer dois lagos do norte da Itáila: Orta e Maggiore. Fiquei hospedado em Borgosesia, uma pequena cidade na região do Piemonte, a cerca de 60Km de Milão. A região é um imenso vale cercado de montanhas e cortada por rios e riachos. Muito propícia, por exemplo, aos amantes do ciclismo. Depois de visitar alguns outros lugarejos como a histórica Varallo, ao pé de Sacromonte, e Alagna, ao pé do Monte Rosa, uma estação de esqui onde vive uma comunidade formada por italianos e austríacos, fui conhecer a região dos lagos.
San Giullio di Orta é uma ilha que, além da água, é cercada por lendas e mistérios. Deve o seu nome a um padre alemão que ali chegou no século IV da era cristã e passou a ser venerado como um santo após libertar a ilha de serpentes, dragões e outros seres, reais ou imaginários, que habitavam o local. Hoje, é o lugar perfeito para quem procura associar férias com boa comida, bom vinho e, um bom descanso. É possível ficar horas à beira do lago com os olhos perdidos no horizonte, sem ser incomodado. Nas suas ruas estreitas espalham-se obras de arte. Aqui e ali você cruza com um ou outro habitante, quase sempre pessoas idosas. Definitivamente, não é o lugar para quem ainda tem a pilha muito carregada.
Da tranquilidade de San Giullio di Orta segui para conhecer o maior lago da região, o Maggiore, que é parte italiano e parte suiço. Há diversas vilas às margens do Maggiore, mas foi a partir de Stresa, onde Hemingway costumava buscar refúgio, que o passeio ganhou outra dimensão. Num barco alugado, fui conhecer 2 das 3 ilhas do lago: Ilha dos Pescadores e Ilha Bella, duas vilas medievais que ainda guardam marcas do tempo em que eram estâncias de férias de famílias nobres e abastardas. Quase não se vê os seus moradores, salvo um ou outro gato que rapidamente desaparece entre as suas vielas tão logo alguém se aproxima.
Das margens da Ilha dos Pescadores é possível ver o topo dos Alpes Suiços cortando o horizonte. Horizonte que jamais se apagará da memória de quem tiver o privilégio de fazer esta viagem.
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Bath - Um banho de história




A primeira vez que tentei ir a Bath foi em 1995, quando visitei Londres pela primeira vez. Era um dezembro tão frio e chuvoso quanto tem sido esse janeiro de 2010. Estava já a caminho quando um alerta no rádio nos fez desistir. Estava com um casal de amigos e não tivemos nenhuma dúvida: melhor voltar. Nevava muito, era melhor não arriscar. Só 14 anos depois, descobri o que o tempo me impediu de conhecer.
Foi uma visita rápida, pouco mais de 3 horas, mas o suficiente para ter uma idéia de como os romanos deixaram suas marcas por aqui. Bath é um pedacinho de Roma dentro de território inglês. Dá gosto passear por aquelas ruas e ver como o antigo e o novo convivem de forma tão bacana. Mesmo sendo uma tarde muito fria e chuvosa, os turistas estavam em toda parte, numa convivência muito pacífica com os locais.
Logo na chegada fui visitar uma das termas. Na entrada, um belíssimo restaurante, onde se toma um belo cappuccino, ao som de música clássica, executada por uma orquestra, ao vivo. Para visitar as termas, o ingresso para adultos custa 11 libras, cerca de R$ 30,00. Posso garantir que a visita vale a pena, mesmo que você não se disponha a gastar esse dinheiro.
Bath é um registro da história, uma marca eternizada pelos romanos, num país que deve tudo o que é ao encontro de tribos que invadiram e guerrearam pelo controle da ilha. É bom acrescentar que as cantinas dos romanos são precursoras de uma das mais caras tradicões inglesas: o pub. Só isso já seria motivo para comemorar o longo tempo que eles estiveram por aqui, mas eles dixaram mais: deixaram Bath.
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sábado, 2 de janeiro de 2010
Uma viagem pelo interior da Inglaterra







Uma viagem não termina quando a gente volta pra casa. Por isso que grandes viagens duram mais, pois tornam-se inesquecíveis. Você pode contar e recontar inúmeras vezes, o que, em si, já é uma viagem. E inesquecível é a palavra que melhor define a viagem que fiz recentemente pelo interior da Inglaterra.
A rigor posso dizer que tenho uma certa familiaridade com parte do chamado "countryside", pois viajo frequentemente para visitar os meus sogros que moram no litoral de Norfolk, de onde o mar conduz ao Pólo Norte. Também já havia passado rapidamente pelo county (estado ou região) de Dorset, pelo qual me apaixonei dessa vez. A viagem foi um presente da Susan, com quem sou casado, que queria me mostrar um pouco dos lugares que ela frequentava nos tempos de estudante. Eu saí de Londres com uma vaga idéia do intenerário que faríamos.
A primeira parada desse roteiro-surpresa foi numa vila antiga chamada Cerne Abbas, que fica no Vale Cerne, na região central de Dorset. Para se ter uma idéia do tamanho da vila, o censo de 2001 registrou uma população de 732 habitantes. A principal atração de Cerne é um desenho de um gigante esculpido na lateral de uma montanha. A vila foi fundada por monges beneditinos em 987 DC e já foi famosa pela cerveja que produzia, devido à qualidade da água que brota do seu solo. A limpidez dessa água ainda pode ser apreciada no córrego que corta a cidade.
De Cerne, onde encontramos um casal de amigos, o Martin, inglês que reside há mais de 18 anos na Itália, e Cristina, sua namorada italiana, fomos para a simpática Weymouth, onde Susan e Martin relembraram os tempos em que estudavam cinema ali.
Anoiteceu às 4 da tarde e decidimos pegar a estrada rumo ao pub-hotel, onde ficaríamos por duas noites, na minúscula Nettle Combe, próximo a Bridport. Não me recordo de outro lugar melhor para dormir numa noite de frio. Encravada entre montanhas, Nettle Comb deve ser o lugar onde a paz busca refúgio, quando está cansada. Foi a primeira vez em que estive num lugar na Inglaterra onde não chega sinal de celular. Para completar, a hospitalidade e a educação ímpar dos moradores da região, deixam você ainda mais relaxado.
Manhã seguinte, depois de um típico café inglês, rumamos para o litoral, para gastar algumas horas em Lyme Regis, onde uma das principais atrações é o pier onde foi rodada a famosa cena de "A mulher do tenente francês". Visitamos também o pequeno museu da cidade, onde o autor do livro que deu origem ao filme, John Fowles, trabalhou como curador e arquivista. O museu guarda uma bela coleção de objtos arqueológicos, ja que Lyme Regis está localizada na região conhecida como Costa Jurássica. Curiosidade: compramos um ingresso que é válido por um ano. Mas o que mais me chamou a atenção em Lyme Regis foi um comportamente típico de quem vive em regiões frias e chuvosas: famílias, casais, amigos, cachorros, passeando como se estivessem em dia de verão. O Martin me explicou: se eles não saem em dia de chuva, se tornam prisioneiros na própria casa, pois chuva é o que mais tem região. Acabei entrando no clima e criei coragem para ir até a ponta do famoso pier, como prova a foto acima.
De Lyme Regis ainda tivemos energia para visitar a capital de Dorset, Dorchester. Chegamos lá por volta das 5 da tarde e já era noite. As lojas já estavam fechando, o que resumiu o nosso passeio a uma volta pela principal rua da cidade. Foi o suficiente para perceber o quanto eles veneram um dos seus filhos mais famosos, o escritor e poeta Thomas Hardy.
De volta ao silêncio e aconchego de Nettle Combe, desfrutamos de algumas pints e algumas taças de vinho, que acompanharam um delicioso jantar, antes de rumar para o conforto dos nossos quartos. Na manhã seguinte, no caminho de volta para Londres, paramos por algumas horas na pequena Roma que é Bath (foto acima). Mas isso é assunto para outro post.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Dublin, escritores e Recife
Se fosse possível precisar a inveja, Dublin seria invejada pelos escritores que produziu. Chega a rondar o mistério o fato de uma cidade, que hoje tem cerca de 500 mil habitantes, ter 3 escritores na lista de premiados com o Nobel de Literatura: o poeta W. B. Yeats, Bernard Shaw e Samuel Beckett. Como se não bastasse, Dublin também viu nascer aquele que, para muitos, é o maior escritor do século XX, e que também encabeça a lista dos injustiçados pela Academia Sueca, James Joyce. Foi através dele que descobri Dublin.
Fui a Dublin pela primeira vez em 1998, mas a sensação que tive ao desembar na cidade foi a de quem está chegando a um lugar que lhe é familiar. Um sentimento de fácil explicação, já que aquela viagem era a realização de um sonho que dormira comigo durante 11 anos. Começou exatamente em 1987, quando li Dublinenses, a primeira publicação de Joyce. Dublin e os dublinenses estavam ali, e a cidade e seus personagens muito peculiares me cativaram. Eu morava no Recife, numa época em que não tinha grana nem pra pagar uma viagem de ônibus até Salvador mas, ao terminar a leitura do último conto, disse para mim mesmo: "um dia vou conhecer Dublin". E Dublin não me decepcionou. Ainda lembro da recepção única que tive, considerando-se que veio de um funcionário da imigração: "Brazilian? You're very welcome", para espanto de uma menina de origem suiça, então minha namorada, que me acompanhava. Enquanto arregalava os olhos ela exclamou que "não sabia que brasileiros eram tão bem recebidos aqui". "Eu também não", respondi. Pouco mais de dois anos, após esta primeira visita, lá estava eu novamente.
Agora, acabo de voltar da minha terceira ida à cidade, e trago a sensação renovada de que lá ainda irei muitas vezes. O mais intrigante é que a cada visita a Dublin, faço questão de ir a alguns dos mesmos lugares que fui antes e, em seguida, acrescento alguma coisa nova à lista. É impossível ir a Dublin e não visitar o Trinity College (primeira foto de cima pra baixo), onde, estudou outro grande nome da literatura irlandesa, Oscar Wilde. Ficar diante do "Book of Kells", o livro sagrado do celtas, com suas ilustrações primorosas e texto, em latin, que não parece ter sido escrito, mas esculpido por mão divina, só é comparável a uma visita à principal biblioteca do Trinity, o mais fascinante templo do livro que tive o prazer de adentrar, em minhas viagens por esse mundo afora. Percorrer aquele longo corredor sob os olhares de cerca de 5 milhões de exemplares, é uma experiência única, incomparável, indescritível.
Uma frase atribuída a Joyce, diz: "Se um dia desaparecesse do mapa, Dublin poderia ser resconstruída através dos seus livros". O mais interessante é que escritores como Joyce tornariam possível a reconstrução não apenas de Dublin, mas do dublinense. Mais que a cidade, é o ser dublinense que está presente em sua obra. E Dublin retribui isso com um imenso respeito e demonstração de orgulho por seus filhos ilustres. Homenagens estão em toda parte. Dublin não os esquece. Dublin é a cidade que tem o único Museu do Escritor que conheço. As casas onde eles nasceram são todas preservadas ou transformadas em Fundações Educativas e Culturais. Agora mesmo, está em construção a belíssima ponte móvel, com um desenho em forma de harpa (foto acima), a ser inaugurada em 2010, e que ganhou o nome de Samuel Beckett. Todo dia 16 de junho é celebrado o Bloom's Day, em homenagem a "Ulisses", obra-prima de Joyce. Na saída de Dublin, no corredor que leva ao portão de embarque, você se despede de Dublin com uma sequência de belos painéis, com trechos de obras de alguns dos seus escritores.
Mas como Dublin sempre me acrescenta sensações novas a cada visita, não foi diferente agora. Não posso negar, no entanto, que foi surpreendente. Caminhando em direção ao hotel, já para pegar a minha bagagem e o caminho do aeroporto, ao atravessar uma das pontes do Rio Liffey, que divide a cidade em norte e sul, tive a sensação que estava atravessando uma ponte do Recife. Mais precisamente, a ponte Duarte Coelho, que liga a avenida Guararapes à Conde da Boa Vista. Mas não parou por aí. Tão logo o avião decolou, comecei a observar Dublin pela janela, à medida em que o avião ganhava altura. E aquelas luzes que iam ficando cada vez mais distantes, uma vez mais, me levaram ao Recife. Na minha mente passava o belíssimo poema "De um avião" onde João Cabral de Melo Neto descreve o Recife em camadas, visto de cima, à medida em que o avião ganha as nuvens. Eu abri um sorriso interno e pensei: "Recife deveria sentir-se tão orgulhasa de João Cabral, quanto Dublin é dos seus escritores." Neste sentido, Recife não tem motivos para invejar Dublin.
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domingo, 6 de dezembro de 2009
Memorial aos mortos dos ataques de 9/7 - faltou um nome
Suchocka, Günoral, Matsushita, Slimane e Badham, são alguns dos sobrenomes inscritos na lápide de mármore, junto ao memorial que recorda os mortos dos ataques que Londres sofreu na manhã de terror do dia 9 de julho de 2005. O monumento foi inaugurado este ano, com as presenças do Primeiro Ministro Gordon Brown e do Príncipe Charles, no dia em que os ataques completavam 4 anos. É algo que os ingleses sabem fazer muito bem: preservar a memória, seja ela gloriosa ou trágica. Às vezes até de forma exagerada. No mesmo Hyde Park, local escolhido para o memorial, há outro dedicado aos animais mortos durante a II Guerra Mundial, por exemplo.
Eu já havia visto o memorial na tv, mas passar entre aquelas 52 pilastras que homenageiam as 52 vítimas do brutal ataque, é completamente diferente. Não há como não sentir uma tristeza dessas que deixa a alma coberta por denso um manto de silêncio. É como ver materializada a brutalidade humana. Nomes que pareciam tão distantes, ilustres desconhecidos, números de uma matemática macabra, ganham origem, nacionalidade, proximidade, sobrenome.
Foi exatamente a leitura de alguns daqueles nomes que acentuaram em mim a sensação do quão absurdo é um ataque terrorista. O absurdo do ataque aleatório, onde as vítimas são escolhidas pelo capricho do acaso. Não foi um ataque contra civis ingleses, o que também não justificaria, foi uma ataque contra quem vive em Londres. Um ataque contra pessoas de diferentes origens: oriental, asiática, africana.
Ao mesmo tempo, aqueles nomes me remeteram a uma ausência. Algo estava faltando. Uma vítima daqueles ataques havia sido esquecida. Por um momento senti vontade de ter comigo uma ferramenta que me permitisse achar um espaço naquela lápide, para gravar ali o nome esquecido: Jean Charles de Menezes.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Paris e o encanto da distância
A primeira vez que fui a Paris foi em 1994. Cheguei exausto, depois de uma longa, embora agradável, viagem de trem, saindo de Barcelona. O hotel que eu havia reservado era pequeno, porém muito decente e aconchegante, situado numa rua perpendicular à Champs Elyssee. Na manhã seguinte, acordei com uma preguiça daquelas em que os lençóis, travesseiros e colchão se tornam os melhores cúmplices. E lá fora fazia frio e chovia. A única decisão que consegui tomar foi a de que pederia o café da manhã no quarto. Todo esforço exigido era esticar o braço alcançar o menu e o telefone. Devo acrescentar que fazer o pedido em inglês exigiu muito mais esforço.
Minutos depois, o presente: uma bela moça, usando um uniforme incompreensivelmente curto para aquela época do ano, era outubro, invadiu o meu quarto portando uma bandeja, um sorriso aberto e um longo "bon jour" entre os lábios. Foi-se a preguiça. Num instante eu estava sentado. Mas tudo o que respondi foi um "bon jour" nordestino. Nunca o francês fez tanta falta. Perdi a língua, enquanto os olhos acompanhavam os movimentos dela ao deixar a bandeja sobre a mesa. Me desejou "bon appetit" e, com a mesma graça com que entrou, me deixou.
Dia seguinte, eu já não estava tão cansado, embora tivesse caminhado muito no dia anterior, mas resolvi pedir o café da manhã no quarto. Sentei-me e esperei. Poucos minutos depois, o susto, a decepção: uma senhora tagarela que mais parecia uma das saudosas irmãs cajazeiras, entrou no quarto exibindo a delicadeza de um tufão. Colocou a bandeja sobre a mesa e, sem me consultar, puxou as cortinas e começou a apontar para fora e berrar: parri, parri. Repentinamente, virou-se e foi embora.
Mas sou teimoso e, no terceiro dia, voltei a pedir o café da manhã no quarto. "Deve ser um dia sim, outro não", foi o pensamento que me justificou o ato. E o pensamento não me traiu. A garota das pernas torneadíssimas e "bon jour" de seda, bateu levemente à porta e, após ouvir o meu "come in", estava ali à minha frente. E agora, o que dizer? Como abrir passagem para um diálogo se eu sequer sabia dizer que não sabia francês, em francês? Não precisou. Ela mesma tomou a iniciativa do diálogo com um surpreendente "você é brasileiro?". "Sou sim, mas como você descobriu?" A resposta veio seguinda de um dedo que apontava o meu passaporte sobre a mesa. Ela era uma estudante que estava fazendo pós-graduação em cartografia. Era paulistana. E eu não sabia que uma paulistana ficava tão bem falando "bon jour".
Mas por que estou contando esta história? Seguinte: eu estou há 4 anos morando em Londres e só fui a Paris uma única vez para fazer alguns programas para o Canallondres. Quando eu morava em São Paulo, fui a Paris umas 4 ou 5 vezes. O fato de saber que Paris está aqui ao lado acomoda ou faz diminuir o encanto. É a mesma razão pela qual fui tão poucas vezes ao Rio, mesmo morando cerca de 10 anos em São Paulo. Enquanto aquela bela moça pareceu um sonho distante, um impossível sonho parisiense, todas as minhas fantasias a desejaram. E como num lapso de um piscar de olhos me abandonaram, quando a familiaridade de um "você é brasileiro?" nos aproximou.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Do Adamastor ao Lux
Quinta-feira, seis da tarde no escritório da agência de propaganda onde eu trabalhava em Lisboa. É verão e o meu telefone toca. Eu atendo, o diálogo é rápido e seguindo de mais alguns telefonemas que vou repassando para outros camaradas. Meia hora mais tarde, estamos sentados com o Tejo e o Porto de Lisboa à nossa frente, dezenas de turistas, a maioria estudantes europeus em férias, e a luz maravilhosa com que a natureza premiou Lisboa. Dividindo o horizonte em antes e depois, a imponente ponte 25 de abril ou, para os mais íntimos, no Adamastor, final do Bairro Alto, bem ao lado do Bairro da Bica. Começava ali a longa noite.
Depois do Adamastor, a próxima parada era o Wip, no Elevador da Bica. O Wip era (não sei se ainda é) uma espécie de 3 em 1, onde você podia cortar o cabelo, comprar umas roupas descoladas e tomar uns copos, localizado num antigo armazém. A calçada e a rua eram o ponto de encontro da moçada cool de Lisboa. Ao passar da meia-noite, a pergunta começava a circular: "quem vai pro Lux... quem vai pro Lux?".
O Lux é um daqueles lugares inesquecíveis por onde passei. A quinta era a minha noite predileta. Ao chegar, já era tratado com o deferimento devido a quem é da casa. Mesmo quando havia filas enormes, o segurança sinalizava para que eu abrisse passagem entre os pobres mortais e furasse a fila. No bar da parte superior, onde eu ficava até que a pista de dança abrisse, bastava me aproximar que já ouvia o familiar "vodca com limão?". Era linda aquela menina. Até dediquei-lhe um poema quando voltei para o Brasil.
Depois da tradicional perigrinação pelos diferentes ambientes que formam o Lux, tempo também para apreciar os móveis e a decoração, chegava a hora de descer para a pista onde, de tanto frequentá-la, já conhecia os meus pares. Era como uma pequena irmandade que se encontrava religiosamente, nas madrugadas de quinta pra sexta, sob o globo que iluminava a pista. Fervia até as sete da manhã. Na saída, alguns dos taxistas já me conheciam, o que tornava tudo mais simples. Sentava-me no banco traseiro e ouvia: "pode dormir, quando chergarmos eu acordo o senhor". E eu dormia até a chegada ao meu destino: Cascais.
Recentemente, quando voltei a Lisboa, para gravar alguns progrmas para o Canallondres, só consegui refazer o início da minha velha tour. Do Adamastor, tomei outra direção. Coincidentemente, estava com um daqueles amigos, o Cássio (foto acima) que costuma falar ao telefone nos finais de tarde para combinar a hora de se encontrar no Adamastor. Resistir, foi a prova definitiva de que estou aposentado das baladas. Mas fica aqui a dica para você aí, cheio de energia, na sua próxima passagem pela bela e inesquecível Lisboa.
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Fotos de crianças na Internet. A nova paranóia inglesa.
Calcula-se que em Londres exista 1 câmera para cada 4 habitantes. A principal explicação para tanto olho eletrônico é óbvia: medo de ataques terroristas. Mas a obsessão com a segurança, em detrimento da privacidade, acabou contribuindo para que a polícia aqui resolva cerca de 90% dos crimes que investiga. É muito difícil mover-se em Londres por 100 metros sem ser capturado por um desses olhares indiscretos. Por isso, uma das primeiras medidas que a polícia toma ao iniciar a investigação é examinar as imagens de todas as câmeras nas proximidades da cena do crime, ou nas possíveis rotas de acesso ou fuga. Junto com o exame de DNA, talvez seja a tecnologia que mais ajuda a desvendar um crime.
Depois do lançamento do Canallondres, em abril desse ano, se tem uma coisa que a gente aprendeu foi que é preciso cuidado quando se está filmando nas ruas da cidade. Se você está com uma câmera ligada numa estação de metrô, num grande shopping ou na City, o coração financeiro de Londres, a probabilidade de ser abordado por um policial, ou segurança da área, é muito grande. Por isso, quando filmamos nas ruas só usamos a câmera pequena, porque é fácil se passar por turista. Para usar uma câmera maior, ou mesmo o tripé, só se você estiver filmando com autorização do Council (sub-prefeitura) local.
Só que agora uma outra paranóia toma conta dos ingleses. O nome é feio: pedofilia. Como a internet tem se revelado um campo fértil para atuação dos pedófilos, cresce nos ingleses o medo de que as fotos dos seus filhos acabem caindo numa das inúmeras redes de pedofilia que povoam o mundo virtual. A primeira vez que presenciei uma cena que era indício desse novo comportamento foi no pátio da belíssima Somerset House, cenário de tantos filmes e que, no verão, é palco para concertos e apresentações ao ar livre. Pois bem, naquele dia ensolarado, 4 meninas adolescentes se divertiam entre as fontes de água, que brotam do solo e formam uma espécie de labirinto transparente, quando um fotógrafo, portando equipamento profissional, começou a registrar as belas imagens. Foi o que bastou para se armar uma grande confusão, com os seguranças tentando confiscar o seu equipamento. No final, ele teve apenas que deixar o local, mas não sem deixar os seus dados pessoais em poder dos seguranças. Just in case. Isso tem se tornado um tema tão sério a ponto de, recentemente, uma avó ter sido abordada e obrigada a provar que a criança, que ela fotografava no playground de um parque, era a sua neta.
Recentemente, fui gravar um programa no Museum of London e o funcionário que nos acompanhou fez duas recomendações explícitas: não filmar uma série de fotografias na parede da recepção, por conta dos direitos de imagem e, muito menos, os estudantes que circulavam pelas salas e corredores do museu, naquele dia.
É por isso que, dos cerca de 80 vídeos do Canallondres, apenas um registra imagens de uma criança e, mesmo assim, porque ela está acompanhada da mãe, a cantora Rebeca Vallim, que era a nossa entrevistada. E ainda assim, economizamos ao máximo a exposição do filho da Rebeca.
Se esta tendência veio para ficar, a cada dia, vamos ver menos e menos rostos infantis nos perfis dos ingleses em sites de relacionamento. Claro que é uma pena que isso aconteça, mas o inglês, em seu pragmatismo, não pensa duas vezes quando o assunto é segurança. Por isso mesmo as câmeras se integraram tão rapidamente à paisagem londrina. Também é uma prova de que a internet mudou definitivamente os limites entre o público e o privado. É uma nova realidade com a qual a gente precisa aprender a conviver.
Tudo isso me faz pensar numa das mais famosas fotos do mundo. Estou me referindo à imagem em que um menino carrega duas garrafas pelas ruas de Paris, capturada pelo clique único de um dos maiores fotógrafos de todos os tempos, Cartier Bresson. Hoje, pelo menos aqui em Londres, provavelmente, aquela foto seria impossível.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Um museu perto de casa
Quando se fala em museus de Londres raramente alguém vai lembrar desse nome: Horniman Museum. Primeiro porque ele fica fora do circuito tradicional, como a Exhibition Road que, sozinha, concentra 3 grandes museus. O Horniman Museum fica, para minha sorte, em Forest Hill, bem pertinho da minha casa.
A origem do Horniman é bem interessante. Um comerciante de chá, Frederick John Horniman, começou a colecionar objetos durante as suas viagens e trazê-los para sua residência em Forest Hill. Com o tempo, a coleção cresceu e ele resolveu abrir a casa para que os vizinhos pudessem conhecer um pouco das culturas e lugares por onde ele passava, através daqueles objetos. O restante você pode imaginar: em 1898, ele contratou um arquiteto e encomendou o projeto do museu, que foi aberto em 1901. Uma das características do museu, mantida até hoje, é que o acesso sempre foi grátis.
Em maio desse ano, quando resolvemos fazer uma entrevista com a diretora de cinema Denise Zmekhol, para um programa do Canallondres, o Horniman Museum foi a primeira idéia de cenário que pensamos. Denise estava em Londres para mostrar o seu documentário Children of the Amazon, no Rainforest Project, ONG do Príncipe Charles. Children of the Amazon trata do legado de Chico Mendes para os povos da floresta e, claro, de qualquer parte do planeta e achamos que o Horniman, apesar da sua importância, é um bom exemplo do que não pode acontecer com os povos da Amazônia: acabarem relegadas a prateleiras de museus. Por isso, documentários como Children of the Amazon são importantes, já que é do conhecimento que nasce o respeito. Por coincidência, Denise está de volta para 3 exibições do seu documentário em Londres e Oxford, acompanhada de Elenira Mendes, filha de Chico Mendes.
Outra característica do Horniman é a preocupação com o lado educacional. É um lugar muito frequentado por crianças. A razão principal é o fascínio que o aquário do museu exerce sobre elas, mas daí para dar uma passada na maravilhosa coleção de instrumentos musicais e na área onde ficam expostos objetos africanos e asiáticos, é só um lance de escada. Agora, a cereja do bolo: o Horniman fica localizado num belíssimo jardim, no topo de uma montanha, de onde, em dias claros, desfruta-se de uma vista maravilhosa de Londres. Aliás, essa pequena montanha é a única razão pela qual eu não vou até lá andando.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009
O dono da calçada
Em qualquer cidade do Brasil a calçada é parte da casa. Em Londres, a calçada pertence à rua. Em princípio, isso poderia significar exatamente nada, mas faz uma grande diferença. Quem curte fazer "jogging" ou simplesmente dar uma volta no quarteirão, sabe a diferença: andar por uma calçada em qualquer cidade brasileira, em geral, é como caminhar por uma superfície em mutação, com altos e baixo, trechos bem cuidados, outros abandonados, planos, inclinados, tudo de acordo com o gosto ou capricho do dono da casa, que também é o dono da calçada. Em Londres, por ser de responsabilidade do poder público, as calçadas são uniformes. Outra vantagem: você não pode bater à porta de ninguém para exigir que mantenha a calçada em bom estado. Quando a calçada é um bem público, você sabe em que porta bater quando precisa exigir alguma ação.
Recentemente, a irmã de uma amiga minha veio de férias para a Europa e teve a infelicidade de quebrar a perna em Paris. Depois de ser atendida (muito bem atendida, por sinal), ela veio para Londres onde teve que "curtir" o que lhe restou das férias, numa cadeira de rodas. "Um pesadelo" nas palavras dela. Depois da nossa conversa, eu pensei: "se numa cidade como Londres, onde as calçada são planas, onde toda calçada é rebaixada nas esquinas, exatamente para facilitar a vida de quem usa cadeira de rodas, ela passou pelo que passou, imagine numa cidade onde os calçamentos, muito frequentemente, parecem pistas de obstáculos? E Londres ainda tem a desculpa de ser uma cidade muito antiga, com ruas construídas para carruagens e adaptadas para a era do automóvel. O metrô de Londres nasceu no século XIX, quando a preocupação com a mobilidade dos deficientes físicos era praticamente inexistente. Mesmo assim, a cidade tem algumas soluções simples que ajudam em muito: além do rebaixamento, toda calçada, assim como as entradas de metrô, tem uma textura diferente na esqueina, para orientar o deficiente visual; os semáforos têm sinais sonoros, pela mesma razão; todo ônibus tem amplo espaço reservado para cadeiras de rodas e carrinhos de bebê.
Outra lição que tirei recentemente das ruas de Londres, é quanto à competência para se realizar uma obra pública. Acordei um dia e vi que tinha movimentação de trabalhadores diante da minha casa. Ao poucos percebi que eles iriam trocar o calçamento. Nunca havia visto algo assim em se tratando de obra pública: uma equipe veio fazendo marcações, outra equipe, logo atrás, veio arrancando o velho calçamento, já seguida por outro time com os blocos de concreto da nova calçada. Tão repentinamente quanto começaram, terminaram. E o chefe da obra, ainda veio me perguntar se eu estava satisfeito com o trabalho deles. Eu tava de queixo no chão: foi rápido, bem feito e não atrapalhou a vida de ninguém.
Foi daí que me toquei para algo tão óbvio, mas que durante toda a minha vida jamais havia dado a devida atenção: calçada não tem dono, calçada é de todo mundo.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
A única praça de Veneza
No início deste ano estive em Veneza pela segunda vez em minha vida. Entre a primeira e a segunda visita, 10 anos se passaram. Registre-se que estes 10 anos se passaram apenas para o visitante. Veneza, embora se diga que ela está cada vez mais imersa em água, continuava a mesma.
Entre suas inúmeras águas, centenas de pontes e suas ruas estreitas, Veneza guarda as marcas de uma cidade outrora muito poderosa. Não só uma das cidades mais poderosa do planeta mas, ao mesmo tempo, a cidade que abriu o ocidente para o mundo binzantino, por conta das aventuras de um dos seus filhos mais ilustres, o mercador Marco Polo, nascido em 1254.
É claro que cada viagem a Veneza, como a qualquer outra cidade do mundo, você vai aprender coisas novas: fatos, curiosidades, lendas, ligadas à sua história secular. Em Veneza, há por exemplo, muita lenda cercando o corpo de São Marco, o santo protetor da cidade, e a basílica que leva o seu nome e onde supostamente se encontra o seu corpo. Conta a lenda que o corpo de São Marco foi encontrado num pilar da igreja em 1094. A versão atual da basílica é, na verdade, sucessora de outras duas versões que foram destruídas por incêndios. Outra curiosidade a respeito de São Marco é que em qualquer lugar de Veneza, principlamente no alto de alguns edifícios, você vai ver anjos que o representam. Estes anjos são os protetores de Veneza.
Mas comecei a falar da Basílica de São Marco, quando o que eu queria mesmo era registrar uma curiosidade que só nesta minha última visita descobri: São Marco é a única praça de Veneza. Isso mesmo: por uma questão de hierarquia, todos os outros lugares que poderiam ser chamados de "piazza" são denominados de "campo". A Piazza di San Marco, frequentada e admirada por artistas, escritores, imperadores e o mais mortal dos turistas, é uma dessas marcas do poder que Veneza ostenta e que o tempo não apagou. E, assim como Veneza, a praça São Marco é única.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Sua Magestade, O Crow
"God's shoulder was the mountain on which Crow sat." Ted Hughes
Alguns animais são tão londrinos quanto qualquer "londoner". Impossível viver em Londres por algum tempo sem cruzar com esquilos, gansos, pombos, raposas e crows. De todos, o crow e a raposa são os que mais despertam a minha curiosidade. Quanto às raposas, estou só esperando que uma delas me dê a chance de fotografá-la para dedicar-lhes um post aqui.
Altivo, todo em preto, o Crow é uma ave magestosa. Ao contrário dos pombos, é impossível imaginá-lo dócil, comendo migalhas que alguma mão humana lhe estenda. É possível encontrá-los em grupos sobre a grama de algum parque, mas também é frequentemente visto em vôos solitários. Vê-lo pousar soberano sobre o topo de uma árvore, ou chaminé, é uma lição de soberania. Ontem mesmo fiquei durante infindos minutos observando um deles bem à minha frente. Do alto da chaminé, parecia preparar o próximo vôo. Até a imponente decolagem, em nenhum instante dirigiu o olhar para baixo. Outro dia, na estação de trem de Nunhead, um deles pousou no topo de um poste. Lentamente me aproximei com a minha câmera para tentar uma foto. Zeloso da sua imagem, ele ergueu a cabeça no exato momento do click.
Fotografar Crows, aliás, tem sido um dos meus exercícios londrinos. Já cheguei a perseguir um deles durante vários minutos, porque a cada tentativa ele voava e sumia de quadro. Ironicamente, só consegui fotografá-lo quando ele pousou na sacada de uma das casas da vizinhança e, claro, ergueu a cabeça como se dissesse "estou pronto".
Inspirador, Ted Hughes, grande poeta que ficou marcado pelo suicídio da também poeta e ex-mulher, Sylvia Plath, tem uma coletânea intitulada "Crow". Nele, a figura mítica dessa ave que tem um quê de divino e demoníaco, ganha versos que parecem fotografias tiradas com o consentimento do nosso herói.
sábado, 7 de novembro de 2009
A praia dos londrinos
Daqui a pouco vou completar 5 anos de Londres. Foram 11 meses entre agosto de 1998 e julho de 1999, e quase 4 anos desde que mudei pra cá em fevereiro de 2006. Nestes dois períodos, morei em 4 diferentes lugares da cidade: Blackheath, Lee Green, Bermontsey e, agora, Nunhead. Em comum, todos estes lugares têm uma coisa, além da localização ao sul do Thames: sempre tive um ou mais belos parques por perto. O parque é a praia do londrino e, ao que parece, cada bairro tem direito à sua. O primeiro parque que frenquentei com uma certa assiduidade foi o belíssimo Greenwich, com seu mercado, livrarias, pubs, museus, o observatório nacional, cafés, entre outras atrações. Passar uma tarde de sábado em Greenwich é uma das coisas mais agradáveis que você pode fazer em Londres.
Aqui, em Nunhead, estou cercado de parques, mas o que mais curto é o Peckham Rye Park (fotos em p&b acima), que fica a 3 minutos da minha casa. Gosto de fazer caminhadas, observar pessoas, sentir a mudança do parque a cada estação. Agora mesmo, as folhas começam a cair e daqui a pouco as árvores estarão completamente nuas. É irônico que, ao contrário do ser humano, elas fiquem nuas exatamente no inverno.
Também curto muito o Hyde Park (foto colorida), pela beleza que exibe em cada canteiro, seu lago maravilhoso, suas fontes romanas e o speaker corner, com loucos de todas as origens fazendo os seus discursos, aos domingos. Uma mistura de parlamento e igreja a céu aberto.
Quando faz um sol, assim como qualquer praia brasileira, os londrinos invadem os parques: tomam banho de sol, fazem caminhadas, jogam rugby, futebol, entre outros esportes. As crianças sempre têm os seus playgrounds, enquanto que adolescentes e amantes de esportes radicais desfrutam de pistas de skate.
Outra característica que chama a atenção de qualquer brasileiro é ver como o verão transforma os parques londrinos em grandes restaurantes ao ar livre. O londrino transforma a hora do almoço num imenso piquenique. Em alguns deles, como o Green Park você pode até alugar cadeiras. Frequentar um parque em Londres, além de aliviar o stress, é uma boa maneira de interagir com essa gente que tem fama de fria e distante, mas que é apenas diferente. Como é qualquer pessoa de outra cultura que não a nossa.
Se você vier a Londres e tiver a sorte de ficar hospedado na casa de algum amigo mais afastada da região central da cidade, aproveite para descobrir belezas que estão fora do roteiro turístico tradicional. Você vai encontrar, no mínimo, um belo parque a 5 minutos de onde você está.
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Camden Town - a outra Londres
Visitar Londres e não conhecer pelo menos um dos seus principais mercados, é tão grave quanto não fazer uma foto com o Big Ben ao fundo para provar que passou por aqui. O primeiro mercado que conheci em Londres foi o de Camden Town. É lá, por exemplo, que você pode ver o que sobrou dos punks. Camden é o retrato da anarquia organizada, se é que isso é possível.
Logo que desce da estação de metrô você já percebe a atmosfera diferente. No caminho até o mercado, dificilmente você escapará da abordagem de algum vendedor de drogas. Lembro que da primeira vez em que estive lá uma senhora negra, gorda e forte, mais forte que gorda, me segurou pelo braço e, enquanto falava, foi me puxando para a margem do canal, tentando convencer-me a comprar o seu "produto". Não é por acaso que a concentração de policiais na área é quase sempre maior do que em outras regiões da cidade. Chegando ao mercado, tem de tudo: comida das mais diferentes nacionalidades; roupa, muito roupa, a preços razoáveis, principalmente de segunda mão; objetos para decoração da sua casa, do mais convencional ao mais bizarro; pubs; tatuadores; tudo, enfim.
Se eu fosse definir Camden Town em poucas palavras diria que é a melhor síntese da Londres que não aparece no imaginário do turista convencional. Toda aquela imagem que se constrói de que o inglês é certinho, organizado, frio, indiferente, não resiste a 5 minutos de de visita a Camden.
Uma outra coisa legal em Camden é que você pode fazer uma bela caminhada (se tiver, bicicleta, vale pedalar) ao longo do canal, indo até Little Venice. No caminho você vai passar no meio do zoo londrino e ao lado de um dos parques mais bonitos da cidade: o Regent's Park. Vai conhecer também os barcos onde muita gente encontrou uma forma alternativa de se morar em Londres.
E se você curte boa música, esta é mais uma boa razão para dar uma passadinha por lá, à noite. Basta dizer que foi na lendária Roundhouse, em Camden, que Jimmy Hendrix surpreendeu os ingleses e o mundo com a sua guitarra desconcertante. E é em Camden que mora a igualmente desconcertante, Amy Winehouse. Precisa dizer mais?
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